O vinho das visões prodigiosas

Narcótico e alucinógeno dos índios das enconstas únidas do leste dos Andes e do noroeste do Brasil, o yage (Banisteriopsis caapi) é conhecido por uma infinidade de nomes: yajé, caapi, kahi, natema, pinde e principalmente ayahuasca (ou cayahuasca, aioasca, auasca), como é chamdo por algumas tribos brasileiras que o ingerem diariamente. Preparado com cipós da família das malpighiáceas, plantas escandentes de trinta metros ou mais, o yage é utilizado para desenvolver poderes telepáticos (os indígenas acreditam que, sob seu efeito, podem conversar com os animais), para auxiliar na busca de objetos perdidos ou para permitir a visão nítida de seres malévolos invisíveis causadores de doenças.

A área natural de distribuição da Banisterioposis caapi se estende desde o sudoeste dos Estados Unidos até regiões baixas da Bolívia. O rito do “vinho advinhatório” - ou “vinho da alma”, “dos sonhos” ou “da morte” -, porém, concentra-se exclusivamente na zona do Amazonas e do Orinoco. O primeiro bontânico a classificar o yagefoi o inglês Richard Spruce - um dos mais brilhantes e audaciosos coletores de plantas da história da América so Sul. Em 1851, depois de quase ter morrido de malária e disenteria, ele pôde observar e participar de uma cerimônia de yage no alto rio Negro, na Amazônia brasileira, e classificou a planta com muita precisão.

Como seu livro Notes of a Botanist on the Amazon and the Andessó foi publicado em 1908, a primeira descrição do yage a ser amplamente divulgada foi a do geógrafo equatoriano Villavincencio, que em 1858 experimentou o vinho e, ao contrário de Spruce, que passou bastante mal, descreveu extasiado seu “vôo acima de lugares encantadores e maravilhosos”. Em 1923, a droga já era bastante conhecida e um filme das cerimônias indígenas de ingestão do “vinho da alma” foi apresentado na reunião anual da American Pharmaceutical Association.

Em 1928, o princípio ativo do yage foi identificado como sendo uma substância hoje conhecida como harmina - na época chamada de “telepatina”, “iageína” ou “banisterina”. Prepara-se o yage utilizando-se a parte interior do caule, que é triturada com um pilão e misturada com água em grandes potes de barro. Da mistura resulta um líquido denso, marrom-esverdeado, de sabor amargo e desagradável.

Segundo Sangirardi Jr., autor do estudo O índio e as plantas alucinógenas, “ao ingerir a bebida mágica, o índio absorve também o espírito da planta, com todo seu encanto e poder. Retorna às origens ancestrais. Viaja até a aurora do mundo. E o mundo verdadeiro não é esse de todo dia, na taba e na floresta. A realidade está no mundo iridescente e nimbado de azul, povoado de fantasmas e revelações. O mundo que nasce da planta miraculosa…”

Ainda hoje no Brasil, principalmente em Rondônia, o yage - chamado de ayahuasca é amplamente consumido. Em Porto Velho, a planta é o centro das atividades da sociedade União do Vegetal, que tem filial no rio de Janeiro. Em suas reuniões, após beberem a droga, os fiéis têm visões multicoloridas.

A extinta revista americana High Times, especializada em drogas, não cansava de repetir que o yage, “a mais alucinógena de todas as drogas”, é “absolutamente legal e seu uso não implica nenhum problema judicial”.  

Eduardo Bueno

BIBLIOGRAFIA
COELHO, Vera Penteado. Os alucinógenos e o mundo simbólico. São Paulo: Edusp, 1976.
EMBODEN, William. Narcotic Plants. Nova York: Collier Books, 1979.FURST, Peter. Alucinógenos e cultura.  Lisboa: Ulisséia, 1976.SANDIRARDI JR. O índio e as plantas alucinógenas. Rio: Alhambra, 1983.STAFFORD, Peter. Psychodelics Encyclopedia. Berkeley: And/ or Press, 1979.

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